Uma análise dos custos de transação em investimentos

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As teorias que envolvem custos de transação são um tema recorrente dentro dos estudos econômicos, devido à sua importância para a compreensão do comportamento humano. Nesse contexto, o presente artigo tem a intenção de abordar como esses custos de transação afetam as decisões de investimento, partindo de sua conceituação, até sua aplicação a exemplos práticos.

 

O que são custos de transação?

Custos de transação podem ser compreendidos como os “sacrifícios” necessários para que certa atitude (transação) seja concretizada. Para avançarmos na ideia, analisemos o caso de um produtor de parafusos. Em uma visão bastante ingênua, seus custos seriam apenas o dinheiro pago pelo aluguel da fábrica, funcionários, compra de matéria-prima, impostos etc.

Porém, existem custos específicos que estão relacionados ao “sacrifício” de se vender tais parafusos no mercado. Alguém precisará sair, de porta em porta, procurando clientes que desejam comprar o produto e, depois de encontrá-los, negociar a melhor forma de pagamento e garantias – mais especificamente, confeccionando um contrato apropriado para cada cliente.

Ainda continuando no caso dos parafusos, se, por exemplo, o dono dessa fábrica decidisse informatizar o departamento de vendas e padronizar os contratos, provavelmente ele estaria diminuindo seus custos de transação, caso conseguisse tornar o processo mais ágil e seguro. Isso significa reduzir os “atritos” da negociação, deixando que o acordo acabe fluindo de maneira menos onerosa para as partes envolvidas.

Outro exemplo bastante citado na literatura é o surgimento do papel moeda (dinheiro) como forma de redução dos custos de transação. Se vivêssemos no tempo da barganha, ao produzir parafusos, teríamos um alto custo para conseguir todos os produtos necessários à nossa sobrevivência. Se quiséssemos arroz, por exemplo, imagine o trabalhão que daria para encontrar alguém que tivesse esse produto sobrando, disposto a trocá-lo por parafusos? Veja como o dinheiro acaba facilitando muito as trocas!

Como é possível notar, o conceito que dá título a esse artigo é bastante amplo, sendo possível de ser aplicado em diversas situações. Entretanto, gostaria de abordar questões relacionadas a investimentos, que de certa forma podem explicar certos comportamentos verificados na realidade.

 

Custos de transação e investimentos

Você já ouviu falar em alocação de ativos? Esse é um tema cada vez mais discutido no Brasil, pós-estabilização da economia, e significa investir o dinheiro em vários ativos, de forma a aproveitar dos benefícios da diversificação. Fazendo um parênteses, se você quiser se aprofundar no assunto, um dos melhores materiais em língua português que já tive contato é o eBookAlocação de Ativos”, escrito por Henrique Carvalho, que ensina de maneira prática a melhor forma de montar sua carteira de investimentos no mercado financeiro.

Mas voltando ao tema do texto, apesar de muitos estudos indicarem a diversificação como algo salutar, ela implica em um custo de transação que pode ser demasiado grande, dificultando sua implantação. Vejamos alguns deles:

– Se destinarmos parte de nossa carteira para o mercado de ações, teremos que, primeiramente, saber mais sobre esse mercado – nunca invista em algo que não conhece bem. Isso lhe exigirá um bom tempo pesquisando quais ações comprar, analisando relatórios (algo que tomará ainda mais tempo, até se adquirir a habilidade de compreendê-los), ou pesquisando os melhores fundos para aplicar seu dinheiro. Eis um custo que impede que muita gente se aventure pelo mercado de renda variável.

– Em se tratando de renda fixa, teremos que pesquisar alternativas como CDB, Poupança, Tesouro Direto, fundos, verificando a forma como remuneram o capital, tributação, comparando possíveis taxas de administração e riscos, dentre outros fatores.

Vejam que nem citei a possibilidade de investir dinheiro em imóveis ou abrindo um negócio próprio. Mas já é possível perceber que, mesmo sendo o CONHECIMENTO um dos maiores investimentos que se pode fazer na vida, ele implica em um custo de transação que pode ser impeditivo, em certas situações.

Dessa forma, o que argumento nesse artigo é que o comportamento de muitos brasileiros preferirem alternativas simples como a Caderneta de Poupança, tem sua razão de ser, e que isso pode ser (pelo menos, parcialmente) explicado pela existência de custos de transação altos. Acredito que tal problema não pode ser visto como uma simples falta de vontade de aprender É preciso compreender que investir dinheiro no que é mais fácil significa diminuir os custos de transação – e geralmente, tal opção traz consigo baixíssimas rentabilidades.

 

Considerações finais

O objetivo desse texto foi o de auxiliar meus leitores no entendimento do complexo do mundo dos investimentos. É possível perceber que mesmo que apenas intuitivamente, muitas pessoas percebem o alto custo de transação de se aventurar em alternativas de investimentos mais elaboradas, e aceitam pagar o preço, abrindo mão de uma maior rentabilidade. Considero isso bastante racional, apesar de acreditar não ser essa a melhor opção.

Atualmente, a internet pode ser encarada como uma ferramenta poderosíssima a favor dos investimentos, à medida que diminui as barreiras para de obtenção de informação. Ainda há muito trabalho a ser feito, pelos educadores financeiros e mídia, de forma a facilitar a absorção de conhecimento sobre finanças pessoais e, assim, diminuir os custos de transação. Acredito que uma atenção especial deve ser dada aos pequenos investidores, que pretendem investir parte de seu suado salário, mas isso deve ser feito de forma responsável. Isso porque investir significa assumir riscos.

Para concluir, gostaria de aproveitar as ideias aqui expostas para dizer que um dos motivos de admirar tanto o eBookAlocação de Ativos”, é que seu autor tem clareza dos problemas causados pelos custos de transação e busca contorná-los com maestria. Como o Henrique Carvalho faz isso? Tornando relativamente simples, algo que pode ser extremamente complexo. Obviamente, tal leitura exigirá muita dedicação, e isso implicará em custos. Mas estes são muito menores devido a todas as informações necessárias estarem condensadas em apenas um único material, o que exigirá menos “sacrifícios” para encontra-las. É isso.

Boa sorte em suas finanças e vida pessoal!

 

 

Sobre Prof. Elisson de Andrade

Professor universitário e palestrante sobre Educação Financeira. Engenheiro Agrônomo (USP), Bacharel em Direito (UNIMEP), Mestre e Doutor em Economia Aplicada pela USP. Ganhador do prêmio BM&FBOVESPA de melhor dissertação/tese sobre derivativos (2004). Um eterno apaixonado em aprender e ensinar.