O homem e o sábio (Parte III)

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Esse artigo é continuação do post O Homem e o Sábio – Parte II

 

CONTINUANDO…

 

Dias depois da segunda conversa, o Sábio estava no mesmo lugar de sempre quando Juca se aproxima. Com um andar mais tranquilo, semblante leve e um embrulho na mão.

 

JUCA: Boa tarde seu Sábio, como tem passado?

SÁBIO: Olá Juca, por aqui está tudo bem. Vejo que está menos estressado e com pressa que das últimas vezes!

JUCA: É meu colega, agora estou mestre na administração de energia…

 

E Juca soltou uma gostosa gargalhada.

 

SÁBIO: Que bom ouvir isso. Deve ter colhido bons frutos depois de nossa conversa.

JUCA: O senhor nem vai acreditar. Naquele mesmo dia, em vez de ficar pensando sobre o assunto – o que me tiraria o sono – relaxei para que sobrasse energia para o dia seguinte. A intenção disso foi a de que eu pudesse usá-la para encontrar maneiras de não desperdiçar energia em meu trabalho, sobrando disposição para atividades prioritárias.

SÁBIO: Que interessante. Conte-me mais.

JUCA: Cheguei ao serviço mais sereno e decidi adquirir um novo hábito: desejar bom dia para cada pessoa que trabalha comigo, do porteiro à copeira, do meu chefe aos subordinados, e até me dar ao luxo de “jogar conversa fora” durante alguns minutinhos com quem quer que fosse. Sem a pressa costumeira de ligar o computador e começar a trabalhar o quanto antes. Percebi que tudo que eu achava urgente, não necessariamente o era para mim, mas sim para os outros. Então, uma segunda atitude foi a de resolver os problemas mais importantes primeiro e não acostumar quem quer que seja que eu resolveria tudo quando eles quisessem.

SÁBIO: E quais foram os reflexos disso?

JUCA: No começo, as pessoas acharam estranho, mas já começo a perceber que preferem muito mais o Juca de hoje do que o estressado de antes. Outra coisa interessante é que, nas tais conversas “jogadas fora”, percebi que certas pessoas que julgava serem incompetentes e até desprezíveis, têm um valor imenso. Aprendo com elas a cada dia sobre as mais diversas questões. Vejo também que sobre o próprio ambiente de trabalho, onde passo diversas horas por dia, havia muita coisa que eu desconhecia e agora consigo ver claramente. Ao dar a chance a mim mesmo de aprender com os outros, ao invés de apenas dar ordens, vejo que tenho crescido muito enquanto pessoa.

SÁBIO: Belas palavras. Vejo que está se saindo muito bem. Percebe que ao abrir sua mente para os relacionamentos, compreendendo os pontos de vistas alheios, tudo se torna mais suave?

JUCA: Exato. Os problemas ainda estão ali. Mas agora busco conversar com meus subordinados, procurando entender o que está acontecendo e traçar uma estratégia, conjunta, sobre como diminuir a ocorrência deles. Dá mais trabalho, mas creio que essa é a única maneira duradoura para sair da “corrida atrás do próprio rabo”. Ao estreitar meus relacionamentos, posso criar uma relação de confiança que, em certo momento, me permitirá delegar funções e focar nas atividades para as quais fui contratado: planejamento. Até então, eu apenas gerenciava crises e vivia um dia após o outro.

SÁBIO: Você está sendo eficiente e eficaz, em relação à administração de energia.

 

Juca gostou do que ouviu e pediu mais explicações.

 

JUCA: Poderia traduzir?

SÁBIO: Está sendo eficiente, pois está usando o mínimo de energia necessária para resolver os problemas, ou seja, sem ficar estressado. E está sendo eficaz porque suas atitudes estão no caminho certo. Prevenir problemas, para sobrar mais tempo para o que é importante. Mas me diga Juca, e quanto à sua família, alguma mudança.

JUCA: Ah, seu sábio, essa está sendo a parte mais difícil. Vejo que durante anos de distanciamento, foi criada uma barreira emocional muito grande entre a gente, que eu nem sabia que existia. Eles até perceberam a mudança, mas sinto certo ar de desconfiança de que isso seja realmente verdade.

SÁBIO: Seus obstáculos são do tamanho da sua grandeza. Se for pequeno por dentro, qualquer barreira será imensa.

 

Juca parou por um tempo, digeriu as palavras e continuou.

 

JUCA: Mas houve um avanço considerável nesses últimos dias, mas sei que tenho muito a melhorar. E o que alimenta minha sede de mudança é poder conquistar novamente o verdadeiro carinho e confiança da minha família.

SÁBIO: Isso é ótimo. Se temos um real sentido na vida, isso será exatamente o que lhe guiará e dará forças para as transformações importantes.

JUCA: Já percebi isso. Mas agora, sendo mais eficiente e eficaz, como o senhor acabou de falar, acabo guardando mais energia para atender às minhas prioridades. No trabalho, está dando tudo certo: consigo resolver os mesmos problemas de sempre, mas com um esforço muito menor. Em casa, ainda estou apanhando bastante para atingir meu objetivo, porém chegarei lá.

SÁBIO: Talvez porque conheça mais seus colegas de trabalho do que sua família.

 

Juca respirou fundo, com um leve ar de desapontamento, mas se recompôs e prosseguiu com a conversa.

 

JUCA: Mas irei mudar essa situação. E sei que vou conseguir, pois os amo mais do que a mim mesmo.

 

O Sábio apenas acenou com a cabeça, concordando.

 

JUCA: Mas seu Sábio, além de vir aqui lhe agradecer e contar as novidades, gostaria que aceitasse esse presentinho.

SÁBIO: Que isso Juca, acabei aprendendo mais com você do que o contrário.

JUCA: Não aceito recusa. Por favor, abra seu presente.

 

O Sábio, vagarosamente, foi desfazendo o embrulho, como se quisesse curtir cada durex retirado.

 

SÁBIO: Nossa Juca, um espelho! Que bonito.

JUCA: Poderia ler a dedicatória atrás dele?

 

E as palavras eram exatamente às que transcrevo abaixo:

 

Amigo Sábio

Espero que toda vez que se olhar no espelho, possa ter orgulho de si. Pois uma pessoa que transforma a vida do próximo, sem pedir nada em troca, usando apenas uma arma – a segurança de ser quem é – certamente não terá desperdiçado ou fugido às responsabilidades da própria vida. E poderá dizer, com o passar dos anos: VALEU A PENA.

Forte abraço de seu amigo e admirador

Juca

 

O Sábio deixou escapar uma lágrima e Juca lhe deu um abraço. Nada mais falaram e cada um seguiu seu caminho, cheios de ternura n’alma e intimamente modificados, para melhor!

 

FIM

Sobre Prof. Elisson de Andrade

Professor universitário e palestrante sobre Educação Financeira. Engenheiro Agrônomo (USP), Bacharel em Direito (UNIMEP), Mestre e Doutor em Economia Aplicada pela USP. Ganhador do prêmio BM&FBOVESPA de melhor dissertação/tese sobre derivativos (2004). Um eterno apaixonado em aprender e ensinar.